Monitor Gamer: Por que a etiqueta "1ms" na caixa é uma armadilha de marketing

Monitor Gamer: Por que a etiqueta “1ms” na caixa é uma armadilha de marketing

Se você entrar em qualquer loja de informática hoje, 99% dos monitores “Gamer” vão exibir orgulhosamente um selo dourado dizendo: “1ms Response Time”.

Pode ser um monitor de R$ 800 ou de R$ 5.000. Todos prometem a mesma velocidade instantânea. Mas se você colocar os dois lado a lado, a diferença é brutal. Um mostra uma imagem nítida em movimento, o outro parece que você está jogando bêbado, com um rastro de “fantasma” seguindo cada personagem.

Como isso é legalmente possível? Simples: a indústria de monitores joga com as métricas.

Neste guia, não vou te dizer qual modelo comprar. Vou te ensinar a ler as entrelinhas das especificações técnicas (specs) para que você nunca mais seja enganado por um painel barato disfarçado de alta performance.

1. A Grande Ilusão: GtG vs. MPRT

Para entender o engodo, precisamos separar duas métricas que o marketing adora misturar:

Gray-to-Gray (GtG)

É o tempo que um pixel leva para mudar de um tom de cinza para outro.

  • O Truque: Para conseguir “1ms GtG” na caixa, as fabricantes aplicam uma voltagem excessiva nos pixels (chamada de Overdrive).
  • A Consequência: Isso faz o pixel mudar rápido, mas ele “passa do ponto” (Overshoot). O resultado visual é o Inverse Ghosting – um rastro brilhante ou ciano/roxo atrás dos objetos em movimento. Na prática, para ter uma imagem usável, você precisa desligar esse Overdrive agressivo, e o monitor “de 1ms” vira um monitor de 4ms ou 5ms reais.

MPRT (Moving Picture Response Time)

Esta é a métrica que realmente importa para a clareza de movimento. Ela mede por quanto tempo o pixel fica visível na tela.

  • O Truque: Para anunciar “1ms MPRT”, o monitor usa uma técnica de piscar a luz de fundo (Black Frame Insertion ou BFI).
  • A Consequência: A imagem fica nítida (sem borrão), mas o brilho da tela cai pela metade e alguns usuários sentem dor de cabeça devido ao flicker (piscada).

A Realidade: A maioria dos painéis LCD (IPS/VA/TN) rápidos hoje tem um GtG real de cerca de 3ms a 5ms. Apenas painéis OLED conseguem tempos reais abaixo de 0.1ms.

2. A Guerra dos Painéis: IPS vs. VA vs. TN (O Estado em 2025)

Esqueça o que você leu em fóruns de 2018. A tecnologia mudou. Vamos ver como cada painel se comporta hoje.

TN (Twisted Nematic) – O “Rei Morto”

Antigamente, se você queria velocidade, TN era a única opção.

  • Hoje: Praticamente obsoleto, exceto em monitores de nicho ultra-competitivos de 540Hz (como os Zowie).
  • Problema: As cores parecem lavadas (“xixi de gato”) e se você olhar um pouco de lado, a imagem escurece (ângulos de visão horríveis).
  • Veredito: Evite, a menos que você seja um pro-player top 0.1% do ranking mundial.

VA (Vertical Alignment) – O Mestre do Contraste… com um “Porém”

  • O Bom: Contraste incrível (3000:1 ou mais). Pretos são pretos de verdade, não cinza escuro. Ótimo para jogar Resident Evil ou assistir filmes no escuro.
  • O Ruim (Black Smearing): A transição de pixels escuros é lenta. Em cenas escuras, objetos em movimento deixam um rastro preto, como uma mancha de óleo.
  • Exceção: A linha Samsung Odyssey (G7, G9) resolveu isso, mas custa caro. Painéis VA baratos são terríveis para jogos rápidos (FPS).

IPS (In-Plane Switching) – O Padrão Ouro Moderno

  • O Bom: Cores vivas, ângulos de visão perfeitos.
  • A Evolução: O “Fast IPS” moderno eliminou a lentidão do passado. Eles são tão rápidos quanto os TNs antigos.
  • O Ruim: “IPS Glow”. Em salas escuras, os cantos da tela parecem brilhar numa cor prateada/amarelada. O preto nunca é profundo, é sempre um cinza escuro.

OLED – O Santo Graal

Não usa luz de fundo. Cada pixel se ilumina sozinho.

  • Tempo de Resposta: 0.03ms Real. É instantâneo. A clareza de movimento é imbatível.
  • Problema: Risco de Burn-in (marcar a tela permanentemente com elementos estáticos como HUD de jogos ou barra do Windows) e brilho máximo mais baixo que LCDs.
  • Custo: Alto.

3. Hz vs. FPS: A Lei dos Rendimentos Decrescentes

Muitos gamers acham que pular de 144Hz para 240Hz será a mesma revolução que foi sair de 60Hz. Não é.

A percepção de fluidez não é linear, é logarítmica. Veja a janela de tempo entre frames:

Taxa de AtualizaçãoTempo por FrameMelhoria em relação ao anterior
60 Hz16.6 ms(Base)
144 Hz6.9 ms9.7 ms (Gigante – Revolução)
240 Hz4.1 ms2.8 ms (Sutil – Refinamento)
360 Hz2.7 ms1.4 ms (Quase imperceptível para amadores)

Conclusão Tática: Para 95% dos jogadores, um monitor 144Hz ou 165Hz de alta qualidade (bom painel, boas cores) é um investimento muito melhor do que um monitor 240Hz barato com painel ruim. Não sacrifique qualidade de imagem por Hz que seus olhos mal conseguem ver.

4. Nuances Escondidas: VRR e Backlight Strobing

Aqui separamos os meninos dos homens na escolha do monitor.

VRR (Variable Refresh Rate) – G-Sync / FreeSync

É obrigatório. O monitor sincroniza seus Hz com os FPS da placa de vídeo.

  • Sem VRR: Seus FPS caem de 144 para 120, a imagem “rasga” ao meio (Screen Tearing) ou gagueja (Stuttering).
  • Com VRR: A queda de FPS é suave e imperceptível.
  • Dica: Quase todo monitor “FreeSync” funciona com placas NVIDIA (G-Sync Compatible) hoje em dia via cabo DisplayPort.

Backlight Strobing (DyAc, ELMB, ULMB)

Essa tecnologia desliga a luz de fundo entre cada frame para limpar a retina do seu olho.

  • Para quem é: Jogadores hardcore de CS2 e Valorant.
  • Efeito: Elimina o borrão de movimento quase completamente.
  • Custo: A tela não pode usar VRR (G-Sync) ao mesmo tempo (na maioria dos monitores) e o brilho cai. É uma escolha: Fluidez (G-Sync) ou Clareza (Strobing).

Minha Experiência Pessoal: O Erro do Monitor Curvo Barato

Há dois anos, caí no hype dos monitores curvos. Comprei um monitor “Gamer” de 32 polegadas, 165Hz, painel VA, de uma marca secundária (white label). Paguei barato.

O Pesadelo: No primeiro jogo de Warzone, entrei num prédio escuro. Ao girar a câmera, as paredes e caixas pretas deixavam um rastro roxo e preto que cobria os inimigos. Era o temido Black Smearing do VA barato. Além disso, o “1ms” prometido só funcionava com o Overdrive no máximo, o que deixava contornos brancos horríveis em tudo.

Acabei vendendo o monitor pela metade do preço e comprei um 24 polegadas IPS 144Hz de uma marca respeitada (AOC, LG ou ASUS).

A diferença: Perdi tamanho de tela e curvatura (“imersão”), mas ganhei informação visual. A imagem era estável. Cores consistentes. Consegui ver inimigos se movendo nas sombras sem borrões.

Lição: Qualidade do painel > Tamanho da tela ou números inflados na caixa.

Checklist para Comprar seu Monitor em 2025

Antes de clicar em “comprar”, verifique reviews independentes (como Hardware Unboxed ou Rtings) para estes três pontos:

  1. Response Time Real: Procure a média real de GtG. Se for abaixo de 5ms sem overshoot visível, é excelente.
  2. Brilho (Nits): Monitores com menos de 250 nits parecem mortos em salas iluminadas. Procure 300 nits ou mais.
  3. Ergonomia do Stand: O monitor sobe e desce? Se for fixo, você vai acabar com dor no pescoço ou gastando mais num braço articulado.

FAQ: Monitores Gamer

1. Monitor Curvo é melhor?

Para imersão em jogos de campanha (RPG, Simulação), sim. A curvatura (1500R ou 1000R) preenche sua visão periférica. Para jogos competitivos e trabalho (design/excel), monitores planos são superiores, pois a curvatura distorce linhas retas e pode atrapalhar a noção de geometria.

2. Vale a pena 4K em monitor de 27 polegadas?

Depende da sua placa de vídeo. 4K exige muito da GPU. Em 27 polegadas, a densidade de pixels do 1440p (Quad HD) já é excelente e muito mais leve de rodar. 4K faz mais sentido em telas de 32 polegadas ou maiores. O “Sweet Spot” atual é 27″ 1440p 165Hz.

3. O que é DisplayPort vs HDMI para jogos?

Sempre use o DisplayPort para PC. O HDMI muitas vezes limita a taxa de atualização (alguns monitores só entregam 144Hz via DP, travando em 60Hz ou 120Hz no HDMI). HDMI 2.1 é necessário apenas se você vai jogar em consoles (PS5/Xbox Series) em 4K 120Hz.

4. Posso consertar Dead Pixels (pixels mortos)?

Geralmente não. Se o pixel está preto (morto), é falha física. Se ele está travado em uma cor (Stuck Pixel – vermelho, verde ou azul), às vezes softwares que piscam cores rapidamente (como JScreenFix) podem “destravar” o pixel, mas não é garantido.

5. G-Sync Ultimate vale o preço extra?

Raramente. A certificação “G-Sync Compatible” (via software) já entrega 95% da experiência sem o custo do chip de hardware dedicado da NVIDIA. G-Sync Ultimate só vale a pena se você busca HDR de verdade com brilho altíssimo, pois o chip ajuda a controlar a luz de fundo.

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