Gasket Mount e a Busca pelo “Thock”: A Ciência do Som e do Flex
Imagine comprar um carro esportivo com motor V8, mas que não tem suspensão e os bancos são de madeira maciça. Você vai sentir cada buraco na rua, seus dentes vão bater e a viagem será desconfortável, não importa quão bom seja o motor.
Nos teclados, o Switch é o motor. A Estrutura de Montagem (Mounting Style) é a suspensão.
Durante anos, usamos teclados “Tray Mount” (montagem em bandeja), onde a placa é parafusada rigidamente no fundo da carcaça. O resultado? Uma digitação dura, vibrações metálicas desagradáveis e um som agudo e oco.
Recentemente, uma tecnologia chamada Gasket Mount (Montagem com Juntas) saiu do nicho de teclados de R$ 3.000 e chegou aos modelos de R$ 400. Ela promete maciez, som profundo e uma sensação de “digitar em nuvens”. Mas será que é tudo isso mesmo?
Neste dossiê, vamos abrir o chassi do teclado e entender a física da acústica, os materiais das placas (Policarbonato vs. Alumínio) e o que define se um teclado soa “barato” ou “premium”.
1. A Evolução das Montagens: Do Rígido ao Flexível
A forma como a Placa (onde os switches ficam presos) se conecta à Carcaça (Case) muda tudo.
Tray Mount (O Padrão Antigo)
É o mais comum em teclados gamers de entrada e escritório.
- Engenharia: A placa (PCB/Plate) é parafusada diretamente em postes (standoffs) que saem do fundo da carcaça.
- A Sensação: Dura. Rígida. Se você bater forte na tecla, o impacto vai direto para a mesa.
- O Som: Inconsistente. As teclas perto dos parafusos soam diferentes das teclas longe. Tende a ter som oco e vibração (ping).
Top Mount (O Padrão Intermediário)
A placa é parafusada na parte superior da carcaça (Top Case).
- A Sensação: Mais uniforme que o Tray Mount, mas ainda rígida.
- O Som: Mais consistente, mas ainda transmite vibração para a carcaça.
Gasket Mount (O Padrão Ouro Atual)
Aqui está a revolução.
- Engenharia: A placa não encosta na carcaça. Ela fica “sanduichada” entre tiras de espuma ou silicone (as Gaskets/Juntas) nas bordas superior e inferior.
- A Sensação: Amortecida. Quando você digita com força, o conjunto inteiro (PCB + Plate) afunda levemente (Flex). É como a suspensão de um carro absorvendo o impacto dos dedos.
- O Som: As juntas de silicone isolam a vibração. O som não reverbera para a carcaça plástica ou metálica. O resultado é um som limpo, isolado e puro do switch.
Nota: Cuidado com o “Fake Gasket”. Algumas marcas baratas colocam um pedaço de silicone decorativo, mas parafusam a placa mesmo assim. Para ser Gasket real, a placa tem que estar “flutuando” sobre os amortecedores.
2. A Acústica dos Materiais: “Thock”, “Clack” e “Creamy”
Se você entrar no YouTube/TikTok de teclados, vai ouvir esses termos exaustivamente. Eles não são aleatórios; eles descrevem frequências sonoras.
Thock (Grave e Profundo)
É o som de “pedras de dominó caindo em madeira”. Frequências baixas.
- Como conseguir: Switches lubrificados, keycaps de perfil alto (SA/MT3) de plástico PBT grosso, e carcaças de plástico denso ou alumínio com espuma.
Clack (Agudo e Nítido)
É o som de “plástico batendo em plástico”. Frequências altas e estaladas.
- Como conseguir: Switches não lubrificados (ou Long Pole), placa de alumínio ou latão, keycaps ABS. Muitos teclados Top Mount focam nisso.
Creamy (Suave e Abafado)
A nova moda de 2024. É um som “amanteigado”, que lembra bolhas de plástico estourando ou gotas de chuva.
- Como conseguir: Switches lineares específicos (como Akko Cream, Gateron Milky), montagem Gasket Mount muito macia e muito uso de espuma PE (Polyethylene) entre a PCB e os switches.
3. O Prato Principal: Materiais da Plate (Placa)
O switch fica preso em uma placa. O material dessa placa dita a rigidez e a ressonância.
- Aço (Steel): O padrão de teclados baratos. Pesado, muito rígido, som metálico agudo. Zero flexibilidade.
- Alumínio: O padrão de teclados custom. Rígido, mas com som mais limpo que o aço. Clássico.
- Policarbonato (PC): Plástico translúcido. Muito flexível.
- Efeito: Absorve as frequências agudas, deixando o som mais grave (Thocky). Aumenta o efeito do Gasket Mount (afunda mais). Favorito para som grave.
- FR4 (Fibra de Vidro): O mesmo material da placa de circuito.
- Efeito: O meio termo perfeito entre a rigidez do alumínio e a flexibilidade do Policarbonato.
- Latão (Brass): Dourado, pesado e denso.
- Efeito: Som muito agudo e musical. Rígido como pedra. Para quem gosta de estética e som alto.
Dica de Compra: Se você quer um teclado silencioso e macio, procure modelos que venham com PC Plate (Policarbonato). Se quer precisão e solidez, Alumínio ou FR4.
4. O Segredo das Espumas (Foam Modding)
Um teclado oco é um teclado barulhento. A engenharia moderna preenche cada milímetro de ar com espuma.
- Case Foam (Espuma de Fundo): Vai no fundo do teclado. Elimina o eco da caixa. (Material comum: Poron ou Silicone).
- Plate Foam: Vai entre a Placa e a PCB. Preenche o espaço ao redor dos switches. Abafa o som geral.
- IXPE / PE Foam Sheet: Uma folha fina (0.5mm) de espuma anti-estática que vai em cima da PCB, embaixo dos switches.
- A Mágica: Essa espuma reflete o som do switch de volta para cima, criando aquele som “estourado” e “cremoso” (Marble sound) que todos amam hoje. É o mod mais impactante para o som.
O Excesso: Puristas criticam o excesso de espuma (“Foam chocking”). Dizem que se você colocar espuma demais, todo teclado soa igual, matando a personalidade do material. Mas para 90% dos usuários, quanto mais espuma, melhor e mais “premium” o som.
5. Minha Experiência Pessoal: Keychron Q1 vs. Teclado Gamer Genérico
Eu fiz o teste cego com amigos. Coloquei na mesa um teclado gamer famoso de R$ 1.200 (Tray Mount, Aço, Switch Brown) e um Keychron Q1 (Gasket Mount, Alumínio CNC, Switch Gateron Pro Yellow) de valor similar.
Teclado Gamer: Ao digitar, o som era estridente. Sentia-se uma vibração no dedo mindinho ao bater forte no Enter. O som era “plástico”. Keychron Q1: Ao digitar, a placa inteira se movia 1mm para baixo. O impacto final (bottom-out) era macio. O som era sólido, grave, sem eco.
Meus amigos, que não entendem nada de hardware, descreveram o Gamer como “brinquedo” e o Custom como “máquina de escrever de luxo”. A diferença não estava no switch (ambos eram bons), mas na suspensão (Gasket) e na massa da carcaça de alumínio. Uma vez que seus dedos sentem o amortecimento do Gasket Mount, teclados rígidos parecem cansativos.
6. O PCB Cuts (Flex Cuts)
Para levar a flexibilidade ao extremo, engenheiros começaram a fazer cortes (fendas) na própria placa de circuito (PCB). Imagine uma placa cheia de ranhuras horizontais.
- Objetivo: Permitir que a placa de circuito dobre e torça fisicamente enquanto você digita.
- Resultado: Uma digitação elástica (Bouncy).
É útil? Para quem digita o dia todo (escritores, programadores), sim. Reduz o impacto nas articulações dos dedos. Para gamers competitivos, pode ser ruim, pois a “moleza” do teclado pode passar uma sensação de imprecisão em movimentos rápidos. Gamers geralmente preferem placas mais rígidas.
7. Guia de Compra 2025: O Que Procurar?
Se você vai comprar um teclado novo hoje e quer essa experiência “Premium”, procure estas palavras-chave na descrição:
- Gasket Structure / Gasket Mount: Essencial para conforto e isolamento de som.
- South-Facing LEDs (LED Sul): O LED fica na parte de baixo do switch.
- Por que? LEDs no topo (Norte) interferem com Keycaps de perfil Cherry, causando barulho de batida. LED Sul garante compatibilidade total com qualquer keycap.
- Dampening Foam / Silicone Pad: Indica que ele já vem preenchido, sem eco.
- Hot-Swappable: Obrigatório. Permite trocar switches sem solda.
- Stabilizers Screw-In (Estabilizadores Parafusados): São muito melhores que os de encaixe (Plate Mount). Eles não chacoalham. A barra de espaço não faz barulho de chocalho.
FAQ: Acústica de Teclados
1. O Tape Mod (Fita Crepe) é seguro? Sim, desde que use fita crepe de papel (azul ou bege).
- O que faz: Colar 2 ou 3 camadas de fita no fundo da PCB (parte de trás).
- Efeito: Filtra frequências altas e reflete as médias. Deixa o som mais “Pop” e alto. É o mod mais barato e eficaz que existe. Evite fita isolante ou metalizada (risco de curto).
2. Gasket Mount é ruim para jogos? Não necessariamente, mas teclados muito moles podem absorver um pouco da energia do clique. Para ritmo e digitação, é perfeito. Para Osu! ou CS2, alguns preferem a rigidez do Top Mount ou Tray Mount para ter um feedback mais seco e direto.
3. O que é “Break-in” de switches? Alguns switches (especialmente os de POM como o NovelKeys Cream) são ásperos quando novos. “Break-in” é o ato de usar o switch por semanas (ou usar uma máquina) para polir o plástico interno pelo atrito natural, deixando-o mais liso com o tempo antes de lubrificar.
4. Lubrificar switches (Lube) faz tanta diferença assim? Sim. Transforma um switch nota 6 em nota 9. Remove o som de “areia” (scratch) e aprofunda o som. Porém, é um trabalho manual que leva 4 a 6 horas para fazer num teclado inteiro. Se tiver preguiça, compre switches “Pre-Lubed” (Lubrificados de Fábrica). A qualidade da lubrificação de fábrica melhorou muito em 2024 (Gateron e KTT fazem ótimos trabalhos).
5. Teclado de metal dá choque? Se sua casa não tiver aterramento na tomada, pode dar uma leve sensação de vibração estática (formigamento) ao tocar na carcaça de alumínio anodizado. Isso é comum em MacBooks e teclados Custom. Não é perigoso, mas é chato. A solução é aterrar a tomada ou usar carcaça de plástico/acrílico.






