A Alquimia do Switch: Guia Definitivo de Lubrificação (Lube), Filmes e Frankenswitches
Você comprou um teclado mecânico caro. Talvez um Keychron, um NuPhy ou montou um custom.
Ao digitar, você sente uma leve “areia” raspando. Ao soltar a tecla rápido, ouve um zumbido metálico agudo (ping). A tecla de espaço parece chocalhar.
O veredito é duro: seu teclado está “seco”.
No mundo dos teclados de alto desempenho, usar switches “Stock” (como vêm de fábrica) é considerado um desperdício de potencial. A fricção entre plástico e plástico (Stem e Housing) e a vibração do metal (Mola e Leaf) criam ruídos parasitas e inconsistências táteis.
A solução é o Lube Mod (Lubrificação Manual).
Mas cuidado: isso não é passar óleo de máquina. Estamos lidando com a química de polímeros. Usar o produto errado derrete o plástico. Usar a técnica errada deixa o switch “enlameado” e lento.
Neste guia técnico massivo, vamos te ensinar a diferença molecular entre Krytox 205g0 e 105, explicar por que o WD-40 é proibido, discutir a física das Molas Progressivas vs Lineares e introduzir o conceito insano de Frankenswitches (como o lendário “Black Cherry Pie”).
1. Anatomia do Atrito: Onde o Switch Dói?
Para consertar, precisamos saber onde raspa. Desmonte um switch (com um abridor de switch) e você verá 4 peças:
- Top Housing (Carcaça Superior): O teto. Onde o Stem bate na volta (Top-out sound). Define o som do “Clack”.
- Bottom Housing (Carcaça Inferior): A base. Onde o Stem bate no final (Bottom-out sound). Define o som do “Thock”. Contém o Leaf (folha de metal que faz o contato).
- Stem (Haste): A peça móvel que sobe e desce. As laterais dele (trilhos) raspam na carcaça.
- Spring (Mola): Define o peso. É a culpada pelo ruído metálico (ping).
A Guerra dos Materiais:
O atrito depende do plástico usado.
- Nylon: Macio, som grave (Thocky), mas naturalmente mais áspero/rugoso. Precisa de lube.
- Policarbonato (PC): Duro, som agudo (Clacky), muito liso.
- POM (Polioximetileno): “Auto-lubrificante”. Tem baixo coeficiente de atrito, mas POM raspando em POM pode parecer “seco” no início até polir.
- UHMWPE: O material mais liso do mundo (usado em coletes à prova de bala). Quase zero atrito, mas muito macio e pode deformar.
2. A Química dos Lubrificantes: Krytox vs. Tribosys
Não use óleo de cozinha. Não use vaselina (ataca petróleo). Não use WD-40.
Teclados exigem lubrificantes sintéticos inertes à base de PFPE (Perfluoropoliéter). Eles não reagem com plástico e não secam nunca.
A Viscosidade (O Segredo dos Números)
Os nomes parecem códigos, mas indicam a espessura.
1. Krytox GPL 205 Grade 0 (205g0): O Rei da Graxa
- Consistência: Manteiga cremosa.
- Uso: Switches Lineares (Red, Black, Yellow, Silver) e Estabilizadores.
- Efeito: Elimina totalmente a arranhadura. Abafa o som, deixando-o profundo e cremoso.
- Risco: Se usar em switch Tátil, você pode “matar” a tatilidade (arredondar o bump), transformando um Brown num Red.
2. Tribosys 3203 / 3204: O Toque Leve
- Consistência: Um meio termo entre óleo e graxa.
- Uso: Switches Táteis (Brown, Holy Panda, Zealio).
- Efeito: Lubrifica sem apagar a sensação tátil. Preserva o “Bump”.
3. Krytox GPL 105: O Óleo Puro
- Consistência: Líquido como azeite.
- Uso: Exclusivo para Molas (Springs).
- Técnica: “Bag Lubing”. Você joga 100 molas num saco plástico, pinga 10 gotas de óleo, fecha e chacoalha como se fosse frango frito. Todas as molas saem perfeitamente cobertas e sem ruído de ping.
3. A Técnica da Pincelada: Menos é Mais
Lubrificar é uma arte zen. Você vai gastar 3 a 5 horas para fazer um teclado inteiro.
Onde aplicar (Lineares):
- Stem: Pincele levemente os dois trilhos laterais (sliders). Uma camada fina translúcida. Se ficar branco, tem excesso.
- Stem (Pernas/Legs): Se for linear, pode passar nas perninhas. Se for Tátil, NUNCA passe nas pernas (onde ocorre o contato tátil), ou você perde a tatilidade.
- Bottom Housing: Pincele os trilhos internos onde o stem corre. Evite o buraco central (pole) para não criar vácuo/squelch.
- Leaf: Evite tocar na folha de metal, a menos que saiba muito bem o que está fazendo. Lube nos contatos pode causar falha de registro.
O Erro do Excesso (Overlubing):
Se você colocar graxa demais, o switch fica “mushy” (parece que está pisando na lama). O retorno da tecla fica lento. O som fica “molhado” (squelchy).
Regra: É melhor lubrificar de menos do que de mais. Você pode adicionar, mas limpar é um inferno.
4. Switch Films: A “Gaxeta” do Switch
Às vezes, mesmo lubrificado, o switch faz um barulho de plástico solto.
Isso é Housing Wobble (Balanço da Carcaça).
As travas de plástico que seguram a parte de cima com a de baixo têm folgas microscópicas. Quando o stem bate, a tampa chacoalha.
A Solução: Switch Film
É uma película retangular (feita de Policarbonato, HTV ou Poron) com espessura de 0.125mm ou 0.15mm.
Você coloca esse filme entre a parte de baixo e a tampa antes de fechar o switch.
- Efeito Mecânico: Preenche a folga. A tampa fica imóvel. O switch fica sólido como uma rocha.
- Efeito Acústico: Altera o som drasticamente. O som fica mais grave e “fechado”.
- Quando usar: Switches antigos (Cherry MX, Gateron básicos) precisam muito. Switches modernos “Premium” (Gateron Oil King, CJ, Box Ink) já têm tolerâncias tão apertadas que o filme pode impedir o fechamento. Teste um antes de filmar todos.
5. A Ciência das Molas: Force Curves
A mola não define apenas o peso (45g, 60g, 80g). Ela define a “personalidade” da curva de força.
- Linear (Padrão): A força aumenta linearmente. Começa leve (30g), termina pesado (60g).
- Sensação: Previsível.
- Slow Curve (Lenta/Longa): A mola é fisicamente mais longa que o switch. Ela fica pré-comprimida lá dentro.
- Efeito: A diferença entre o início e o fim é pequena. Começa pesado (45g) e termina pesado (55g).
- Sensação: O switch parece mais “snappy” e responsivo na subida. Ótimo para a tecla Espaço.
- Progressive (Progressiva): As espirais da mola têm densidades diferentes.
- Efeito: Começa muito leve e fica exponencialmente pesado no fundo.
- Sensação: Evita que você bata no fundo com força (cushioning). Bom para quem digita com raiva e quer proteger os dedos.
- Two-Stage (Dois Estágios): Molas extra-longas com duas seções.
- Efeito: Retorno violentamente rápido. A tecla pula de volta para o dedo. Favorita de gamers de ritmo (Osu!).
Spring Swapping:
Trocar as molas é o mod mais barato e impactante. Se você acha seu switch “leve demais” e comete erros de digitação (typos), troque as molas de 45g por 62g ou 67g. A precisão aumenta instantaneamente.
6. Frankenswitches: A Busca pelo Santo Graal
Quando os entusiastas não encontram o switch perfeito no mercado, eles o criam.
Um Frankenswitch é um monstro feito com partes de 2 ou 3 switches diferentes.
Exemplos Lendários:
- Holy Panda (O Original):
- Stem: Halo True (Tátil).
- Housing: Invyr Panda.
- Resultado: O switch tátil mais famoso do mundo. Um som de “Tack” alto e uma tatilidade redonda e satisfatória.
- Black Cherry Pie (BCP) – O Rei do Thock:
- Top Housing: Cherry MX Black (Nylon – Som grave).
- Bottom Housing: JWK H1 ou Alpaca (Liso).
- Stem: Kailh Cream (POM – Liso e haste longa).
- Resultado: O som de “mármores batendo” definitivo. O “Long Pole” do stem bate no fundo antes do normal, criando um som alto e nítido. Custa cerca de R$ 8,00 por switch para montar.
- Cthulhu:
- Stem: Kailh Black.
- Housing: Gateron Milky Yellow + Ink Black.
- Resultado: Extremamente cremoso e suave.
Vale a pena?
Financeiramente? Não. Você compra 3 switches para fazer 1.
Acusticamente? Para o ouvido treinado, sim. É a busca pela perfeição sonora que nenhum fabricante em massa consegue replicar.
7. Break-in: Polindo o Plástico
Switches feitos de POM (como o NovelKeys Cream) são famosos por serem “ásperos” (scratchy) quando novos, mas ficarem divinos depois de 6 meses de uso.
Isso acontece porque o atrito pole o plástico.
A Máquina de Break-in:
Entusiastas impacientes usam máquinas que apertam os switches 500.000 ou 1 milhão de vezes mecanicamente (off-center) em alta velocidade.
- Processo: Comprar switches -> Colocar na máquina por 48h -> Limpar o pó de plástico gerado -> Lubrificar -> Montar.
- Resultado: Um switch “Vintage” artificialmente envelhecido, ultra liso, sem precisar usar por um ano.
8. O Perigo do “Spray Lube” (O Método Preguiçoso)
Você verá vídeos no YouTube dizendo: “Como lubrificar sem desoldar! Use Spray Super Lube!”
Eles pegam uma lata de spray, enfiam o canudo no switch montado e espirram.
NÃO FAÇA ISSO.
- Inconsistência: Você não controla a quantidade. Um switch vai ficar inundado, o outro seco.
- Danos à PCB: O lubrificante escorre pelo fundo do switch, cai na placa de circuito, mistura com poeira e pode criar curtos ou capacitância parasitária. As teclas param de funcionar ou registram sozinhas.
- Danos ao Plástico: Alguns sprays têm propulsores à base de petróleo que derretem certos plásticos (como policarbonato) com o tempo, causando rachaduras (stress cracks).
Se seu teclado não é Hot-Swap, a única forma correta é desoldar tudo, abrir, lubrificar com pincel e soldar de volta. O atalho do spray é o caminho para o lixo.
9. Minha Experiência Pessoal: O Desastre do Excesso
Minha primeira vez lubrificando foi traumática.
Comprei Gateron Yellows. Comprei Krytox 205g0.
Na ansiedade, coloquei uma “bola” de graxa dentro do switch, achando que “quanto mais, mais liso”.
Montei o teclado.
Sensação: Parecia que eu estava digitando em chiclete molhado. As teclas demoravam para subir. O som era de “squish-squish”. O teclado ficou inutilizável.
Tive que abrir os 70 switches novamente. Limpar tudo com álcool isopropílico e cotonete (levou 2 dias) e refazer com uma camada invisível de lube.
Resultado: O teclado renasceu. O Gateron Yellow bem lubrificado é, na minha opinião, o melhor custo-benefício do mundo. Ele supera switches de R$ 5,00 sendo um switch de R$ 1,50, apenas pelo trabalho manual.
10. Guia de Escolha de Lube (Cheat Sheet)
| Tipo de Switch | Lubrificante Recomendado | Onde aplicar? | Observação |
| Linear (Red/Black/Yellow) | Krytox 205g0 | Stem (lados+pernas), Housing, Mola (óleo) | Pode ser generoso, mas sem excessos brancos. |
| Tátil (Brown/Panda) | Tribosys 3203 ou 205g0 (muito fino) | Stem (LADOS APENAS), Housing | NUNCA nas pernas do stem (legs). Mata o bump. |
| Clicky (Blue/Green) | Não Lubrifique | N/A | O lube pode “colar” o click jacket, matando o barulho de click e estragando o switch. |
| Molas (Springs) | Krytox 105 (Óleo) | Bag Lube (sacola) | Essencial para tirar o ruído metálico. |
| Estabilizadores | Krytox 205g0 ou XHT-BDZ | Haste e Arame | Use muita graxa no arame (Wire) para evitar chocalho. |
FAQ: Modding de Switches
1. Lubrificante de fábrica (Factory Lube) é bom hoje em dia?
Em 2024/2025, sim. Marcas como Gateron (linha Oil King, North Pole) e KTT melhoraram muito. O lube de fábrica já vem consistente. Para 80% das pessoas, não precisa refazer. Mas para o purista, o lube manual ainda é superior.
2. O que é “Long Pole Stem”?
É uma haste com o pino central mais comprido.
- Efeito: Ele bate no fundo do switch antes que as laterais batam. Isso cria um som mais alto, nítido e “Thocky”, e reduz levemente a distância de viagem (de 4.0mm para 3.5mm). É a tendência atual do mercado.
3. Filmes (Films) servem para qualquer switch?
Não. Switches tipo “Box” (Kailh Box) ou switches com carcaça muito apertada (Boba U4T) não aceitam filmes; eles não fecham ou estufam. Filmes são essenciais para Cherry MX e Gaterons antigos.
4. Posso misturar óleos para criar meu próprio lube?
Sim. Muitos entusiastas misturam Krytox 205 e 105 para criar uma consistência personalizada. Mas exige testes. Se ficar muito líquido, escorre para a placa.
5. O que é “Holee Mod” nos estabilizadores?
É uma técnica onde se cola um pedaço de band-aid dentro do orifício do estabilizador para amortecer o impacto do arame de metal contra o plástico.
- Veredito: É difícil de fazer e pode deixar a tecla “mushy” com o tempo se a cola soltar. Hoje em dia, estabilizadores melhores (como TX ou Staebies) com tolerâncias apertadas tornaram o Holee Mod desnecessário.
Conclusão: O Toque Pessoal
Modificar switches é o oposto de comprar um produto de prateleira.
É pegar um componente industrial e dar a ele um toque artesanal.
Um teclado lubrificado à mão tem uma assinatura única. O som, o peso, o retorno tátil — tudo foi escolhido por você.
Pode parecer loucura gastar 6 horas pincelando plástico num sábado à tarde. Mas quando você senta para trabalhar ou jogar na segunda-feira e sente a suavidade amanteigada sob os dedos, você entende que não é sobre o teclado; é sobre a qualidade da sua interação com o computador.






